por Alexandre Picarelli

A história da Bíblia não é um relato de homens sobrenaturais, de homens com poderes mágicos e valor moral extraordinário, ou de integridade infalível. A Bíblia trata de duas coisas com muita clareza: De um lado a revelação do caráter de Deus – AMOR, JUSTIÇA E PAZ, e por consequência, o caráter do homem, preso em condição carnal, falível, confuso, limitado.
Podemos ver também como Deus trata a salvação, a partir do desejo do homem em reconhecer e aceitar a Deus, e ter o desejo honesto e sincero de segui-lo em sua vida.
Tendo em mente estes dois momentos, entendo que não interessa a Deus revelar em sua palavra a homens sobrenaturais, que seriam exemplos inatingíveis de conduta, caráter e santidade. Deus mostra uma humanidade que foi criada, menores que os anjos, mas apaixonadamente amada por Ele. A verdade do amor de Deus revelada aos homens, não é propriedade de igrejas, já esta exposta na sua palavra, acessível a qualquer pessoa de boa vontade. Lendo, orando, relendo, estudando, qualquer um de nós, recebe o entendimento vindo de Deus, para compreender com precisão o teor das mensagens que Ele quis nos deixar.
Desenhado o que para mim é importante como, Deus e o homem e o homem e Deus, vamos ao primeiro texto:
“Revesti-vos de toda a armadura de Deus, para poderdes permanecer firmes contra as ciladas do Diabo; pois não é contra carne e sangue que temos que lutar, mas sim contra os principados, contra as potestades, contra os príncipes do mundo destas trevas, contra as hostes espirituais da iniqüidade nas regiões celestes. Portanto tomai toda a armadura de Deus, para que possais resistir no dia mau e, havendo feito tudo, permanecer firmes. Estai, pois, firmes, tendo cingidos os vossos lombos com a verdade, e vestida a couraça da justiça, e calçando os pés com a preparação do evangelho da paz, tomando, sobretudo, o escudo da fé, com o qual podereis apagar todos os dardos inflamados do Maligno. Tomai também o capacete da salvação, e a espada do Espírito, que é a palavra de Deus;” Efésios 6:11-17
Primeiro, Paulo descreve com quem lutamos. Não enfrentamos alguém como nós, de carne e sangue, nem a luta se faz contra nossa própria natureza, de carne e sangue. Mas lutamos com algo sobrenatural, algo maior e com mais recursos que os humanos. Nesta guerra aparentemente desproporcional, nos é ensinado que se nos apegarmos a alguns recursos como; a verdade, justiça, os ensinamentos de Cristo que é a paz, acreditando sobre tudo, que Deus já fez todo o necessário para nos salvar, aí, em nosso desejo, não na carne pois esta já esta morta junto com o pecado, mas em nosso desejo em espírito de aceitar no que ele nos ofereceu através de nosso Senhor Jesus Cristo. A salvação é uma oferta gratuita feita por Deus, em seu amor por nós, e veremos isto mais a frente. E se alguém, por ignorância ou maldade, nos apontar acusação, temos nossa arma infalível para enfrentarmos tais acusações - a palavra de Deus. Pois está escrito:
- Mas Deus dá prova do seu amor para conosco, em que, quando éramos ainda pecadores, Cristo morreu por nós. Romanos 5:8
- Quem os condenará? Cristo Jesus é quem morreu, ou antes quem ressurgiu dentre os mortos, o qual está à direita de Deus, e também intercede por nós; Romanos 8:34
- (...)porque Deus não nos destinou para a ira, mas para alcançarmos a salvação por nosso Senhor Jesus Cristo, que morreu por nós, para que, quer vigiemos, quer durmamos, vivamos juntamente com ele. I Tessanocenses 5:9 e 10
Não devemos deixar o diabo, ou homem algum, que nos tire a certeza de que tudo foi feito por Deus, para nosso bem, e para estarmos com Ele.
A maior arma de manipulação do diabo é fazer com que acreditemos que a salvação é impossível, e, principalmente, só pode ser atingida por anjos, pois nós mortais, não temos como atingi-la em nossa condição falível e carnal. Ou que só as igrejas podem nos conferir estes poderes salvadores, só elas podem nos dar este salvo-conduto.
Queridos, o diabo nunca engana com uma mentira absoluta, sempre usa uma verdade distorcida, e ele está certo, na carne não poderemos ser salvos. Por isto Deus nos justifica no sangue de Cristo, e através Dele, podemos servir a Deus em espírito.
Agora vamos a chave da compreensão deste texto - a Graça de Deus, sejamos atentos ao que narra Paulo:
“É necessário gloriar-me, embora não convenha; mas passarei a visões e revelações do Senhor. Conheço um homem em Cristo que há catorze anos (se no corpo não sei, se fora do corpo não sei; Deus o sabe) foi arrebatado até o terceiro céu. Sim, conheço o tal homem (se no corpo, se fora do corpo, não sei: Deus o sabe), que foi arrebatado ao paraíso, e ouviu palavras inefáveis, as quais não é lícito ao homem referir. Desse tal me gloriarei, mas de mim mesmo não me gloriarei, senão nas minhas fraquezas. Pois, se quiser gloriar-me, não serei insensato, porque direi a verdade; E, para que me não exaltasse demais pela excelência das revelações, foi-me dado um espinho na carne, a saber, um mensageiro de Satanás para me esbofetear, a fim de que eu não me exalte demais; acerca do qual três vezes roguei ao Senhor que o afastasse de mim; e ele me disse: A minha graça te basta, porque o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza. Por isso, de boa vontade antes me gloriarei nas minhas fraquezas, a fim de que repouse sobre mim o poder de Cristo. Pelo que sinto prazer nas fraquezas, nas injúrias, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias por amor de Cristo. Porque quando estou fraco, então é que sou forte.” II Coríntios 12:1-10
O que sempre me perseguiu nesta passagem, e que alguns estudiosos dizem que Paulo se referia a uma enfermidade, que o tal ‘espinho’, era talvez um problema de visão. Mas como pode alguém, depois de ter visto o paraíso, reclamar de uma enfermidade? A saúde pra quem sabe pra onde vai depois da morte não é problema (Combati o bom combate, acabei a carreira, guardei a fé. Desde agora, a coroa da justiça me está guardada, a qual o Senhor, justo juiz, me dará naquele dia; e não somente a mim, mas também a todos os que amarem a sua vinda. II Timóteo 4:7,8), Paulo definitivamente, sabedor e coerente da fé em quem acreditava, jamais poderia estar preocupado com sua saúde (Onde está, ó morte, a tua vitória? Onde está, ó morte, o teu aguilhão? I Cor. 15:55). Paulo em tempo algum, em um momento tão místico, tão sublime pediria a Deus uma cura física. E o diabo, jamais usaria algo tão tolo para cravar um ‘espinho na carne’ do apostolo. O que poderia ser então?
Talvez fosse um pecado, ou uma fraqueza, ou uma tendência. Enfim, o fato é que este texto se torna claro quando percebemos que Paulo quer ter sua natureza canal transformada, pois - “não recebestes o espírito de escravidão, para outra vez estardes com temor, mas recebestes o espírito de adoção, pelo qual clamamos: Aba, Pai! (Rom. 8:15), Pois os que são segundo a carne inclinam-se para as coisas da carne; mas os que são segundo o Espírito para as coisas do Espírito. (Rom. 8:5)” – Em Romanos 7 ele mostra bem como é o funcionamento entre as duas naturezas “Pois não faço o bem que quero, mas o mal que não quero, esse pratico. Ora, se eu faço o que não quero, já o não faço eu, mas o pecado que habita em mim. Acho então esta lei em mim, que, mesmo querendo eu fazer o bem, o mal está comigo”. É muito simples compreender esta distinção, somos libertados em espírito para servir a Deus, mas nossa natureza carnal só deixará de existir quando da segunda vinda de Jesus.
Não há base coerente para se acreditar que Paulo, em momento tão impar a um humano mortal, em situação tão especial, rogasse por uma deficiência física. Paulo pediu que sua natureza fosse transformada, para que seu “espinho”, seus pecados, não mais, em seu entendimento limitado, continuasse sendo usado pelo inimigo de Deus. Jamais satanás iria falar: olha sua saúde, sinta-se envergonhado por isto; mas dizer: olha os teus pecados, se envergonhe por eles, aí sim faz todo sentido. Neste instante, Deus responde: “A minha graça te basta, porque o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza.” É mostrando um pecador que crê na justiça de Deus, que Ele tem o poder para salva-lo, mesmo nesta condição humana, nesta fraqueza condicional é que revela o seu amor e seu poder.
Quando Jesus, ao invés de curar um enfermo lhe perdoa os pecados, houve grande tumulto, e neste momento Jesus pergunta se era mais difícil curar um enfermo ou lhe perdoar os pecados? Sem duvida, perdoar pecados é um dom de Deus e, é muito mais importante ser salvo para a vida eterna que estar com saúde, pois este corpo é mortal, esta sob o preço do pecado que é a morte.
Queridos, o importante portanto, não é estar neste momento, vestidos com esse corpo carnal fraco, falível, corruptível; mas acreditar que somos adotados por Deus, em espírito. Paulo ensina que não há como não sermos falíveis, mas podemos buscar sermos melhores, para nós e nosso próximo, de vitória em vitória, até que Jesus venha nos buscar e sejamos transformados. Até lá, nos basta à graça de Deus, que é a base de nossa fé. A diferença entre carne e espírito é a chave para o entendimento da justificação pela fé.